A história da mulher de 108 anos que mora em Sobral

Raimunda Pereira do Nascimento mora no bairro Sumaré.Foto-Marcildo Brito

“É muito ano que eu tenho e hoje estou tão alegre. Estava pensando em tudo que vivi para dizer a vocês”, enfatiza emocionada a moradora mais velha do bairro Sumaré em Sobral. Com 108 anos de idade, dona Raimunda Pereira do Nascimento não esperava viver tanto, mas lembra com lucidez de tudo o que já viveu e, como sua disposição para o trabalho ajudou a enfrentar as diversas situações que surgiam no seu caminho. Hoje, aposentada, mora com o filho homem caçula, mas é acompanhada pelos outros dois filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Assim, a matriarca se vê na obrigação de distribuir muitas bênçãos por dia.

Nascida em 10 de outubro do ano de 1910 em Ubajara, na Serra da Ibiapaba, ou “Serra Grande”, como ela prefere chamar, lembra de toda trajetória até chegar em Sobral, onde há mais de 30 anos chegou com sua família. Na infância, morava com sua mãe e seu pai, no sítio Moitinga, em terras de ricos fazendeiros na época. Desde nova sempre procurou ajudar a família por meio do trabalho. Seu pai tinha um trabalho, e ela outro. A mãe morrera antes do pai, por isso possuía uma ligação muito forte com o progenitor, o qual lembra com muita saudade ainda hoje. Só teve um irmão, este construíra sua própria família cedo, assim Raimunda não media esforços para colocar alimento na mesa da casa onde morava com o pai e a mãe.

Vida de trabalho

Raimunda Pereira, foi uma mulher à frente de seu tempo. Lembra com ênfase do companheiro de trabalho Manoel Lopes, quando trabalhavam nas terras de Joaquim Canuto: “Era moça nova, capinava no meio de muito homem. Eu era da frente porque toda vida eu era disposta a tudo. Só não fazia roubar, nem fazia o que não prestava, mas cortava e moía cana-de-açúcar, ia pro engenho, tirava rapadura. No roçado eram três homens e três mulheres, mas a ‘mais disposta’ era eu. Toda vida fui disposta para trabalhar. Se me perguntassem o que fiz, respondia: ‘Fiz o que tinha que fazer!”, ressalta ela.

Seu trabalho a tornava independente, comprava as próprias roupas, mas isso não impedia de ter obediência ao pai e a mãe com quem morava; nos dias de folga, ajudava o pai sempre que a solicitava: “Ajudava meu pai a capinar, moía, fazia lamparina, torrava farinha. Saía de Ubajara e ia vender coisas em São Benedito com minha mãe, as duas com balaios na cabeça. Eu era trabalhadeira, todo mundo só queria eu porque trabalhava”, lembra ela com o sorriso da memória nos olhos.

Juventude

Dona Raimunda Pereira, lembra que nos tempos de moça gostava de participar das novenas em honra a São Francisco, mas gostava de namorar e, dançar também: “Eu dançava forró, dançava valsa, dançava tudo, só queriam dançar comigo. Saia até escondida da mamãe para dançar”, enfatiza ela que ainda dança solta uns passos quando o filho liga o rádio para ela escutar.

Família

Ainda em Ubajara, conheceu Francisco, um camboeiro (empregado que transportava mercadorias – cana, capim, lenha – em lombos de animais). Casou-se com ele e teve quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Uma das mulheres, ainda menina, morreu em um incêndio que aconteceu na casa onde moravam: “Ela foi enterrada coberta em folhas de bananeiras, eu tenho pena”, lembra dona Raimunda emocionada.

Passaram por Cariré, e depois o esposo decidiu comprar uma casa em Sobral. Quando chegaram na cidade, onde ela reside há mais de 30 anos no bairro Sumaré, seu Francisco começou a fazer carvão para ganhar dinheiro e alimentar os filhos, assim dona Raimunda começou a ajuda-lo: “O povo dizia pra eu largar de ser tão disposta desse jeito, porque iria morrer, eu respondia: ‘Quero é trabalhar’.”, ressalta. Seu Francisco faleceu há cinco anos com 85 anos de idade.

Alimentação

Quando mais nova, dona Raimunda não deixava de comer seu precioso feijão com rapadura e queijo: “Trabalhava no sertão com uma mulher que me dava queijo, ela mandava repartir com os meus filhos e os dela, eles comiam com feijão. Machucava o capitão de feijão”, lembra ela que hoje baseia sua alimentação em mingau, vitamina de banana, pão e um feijãozinho de vez em quando.

Segredo e conselhos

Até pouco tempo atrás dona Raimunda ainda confeccionava chapéus na companhia da filha, mas deixou de fazê-los devido à dificuldade na visão que começou aparecer. De vez em quando sente cansaço, mas os filhos sempre ajudam da maneira que podem, dando-lhe medicações prescritas por médicos ou acalmando-a com uma simples e boa conversa. Ela confessa que não esperava passar dos 100 anos: “O segredo é que tem aquele Pai que está me sustentando, meu segredo é Deus”, enfatiza.

Dona Raimunda, possui toda referência e dignidade para dar conselhos a quem lhe pedir. Ela lembra que nunca deixou de dá-los aos filhos, aos quais quer muito bem, e o que sempre repete é: “Eu dou conselhos a meus filhos só do bem, para trabalhar. Ensine seus filhos a trabalharem. Vão trabalhar que é para não chegar a pegar no que é dos outros”, conclui ela cheia de emoção e gratidão ao poder partilhar um pouco de sua história.

Henrique Brito – Especial Correio da Semana

 

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