Léo Mackellene:Como gota de óleo na superfície da água

Carlos Haroldo Vasconcelos

Poeta, letrista, ativista cultural

Livro foi lançado na Bienal Internacional do Livro do Ceará, em abril deste ano. Fotos -Arquivo

Livro foi lançado na Bienal Internacional do Livro,em abril deste ano.Fotos -Arquivo

 O livro do Léo chegou às minhas mãos em um momento não exatamente favorável à leitura. Eu estava no meio das mil e duzentas páginas de O Homem Sem Qualidades, quando resolvi encaixar um livro sobre a boêmia de Paris nas primeiras décadas do século XX, para desopilar de Musil. No meio das duas leituras, soube da existência de um Clube de Leitura em Fortaleza que estava promovendo uma leitura coletiva de As Aventuras da Menina Má, de Vargas Llosa e iniciei esta outra leitura com prazo para concluir.

Escritor sobralense Léo Mackellene

Escritor sobralense Léo Mackellene

Foi com esta angústia de leitor com três leituras em aberto que encontrei com o Léo, a propósito, numa livraria, lugar, aliás, em que todo leitor experimenta delícia e a angústia de passar pelas prateleiras e acenar para todos os livros que sabe ser impossíveis de ser lidos nem em três ou quatro vidas.

Foi lá que recebi Como gota de óleo em superfície de água, a capa bonita, autografada cuidadosamente, no ato, com as mãos multi-artistas na cria.

Horas depois, em outro tempo e lugar, me vi com um indesperdiçável estoque de tempo livre e o livro que eu tinha nas mãos era justo o da capa inquieta, meio arte moderna meio taoísta e decidi ler o prefácio.

Só parei duzentas páginas depois, ao ser ejetado da minha posição de leitor, no amanhecer de um dia cheio de compromissos que se seguiu num hiato destes de que a vida moderna esta repleta, para só então pegar no exemplar e concluir num segundo e lancinante fôlego sua leitura vertiginosa.

Citei as leituras que vinha fazendo para dizer da primeira grande cracterística que salta do livro: é uma destas obras que destrava um leitor truncado. Atropela filas de livros por seu ritmo ágil, por sua cadência e sua musicalidade.

Não se engane o leitor de que é um livro fácil, raso. Tem os seus desafios como a miríade de personagens, a teogonia que – se revelará – antecede as sagas entrelaçadas dos protagonistas, personagens esses tratados com zooms de câmera literária, nunca periféricos ou menores, cada um com seu fascínio.

Também não é um desafio menor, mas que presenteará o leitor com uma experiência de fruição artística das mais prazerosas, atravessar silenciosamente as sutis transferências de papel narrativo entre os personagens, executado com muita felicidade pelo autor, que parece ter meramente se dado ao trabalho de ouvir cada persona, psicografando a própria ficção.

Não é, no entanto, um livro hermético, é uma obra pop, até. Talvez um romance de geração. Neste caso, um retrato contemporâneo de uma geração de pessoas excessivamente comuns, com suas cicatrizes, suas referências de cultura pop, sua densidade afetiva, mas, sobretudo sua juventude.

Um livro agradável e instigante, com doses acertadas de sexo, drogas e rock’n roll, mas sem concessões estéticas. Passa ao largo das fórmulas de oficinas e não cria artifícios de literatura de entrentenimento, mas também evita um distanciamento erudito bem a gosto dos personagens que citam de Rimbaud a Renato Russo e transitam bem entre a academia e as ruas.

 Cada leitor é um e traz suas próprias referências. E cada leitor, um susto. Eu me arrepei todo com trechos de narrativas e descrições das três principais cidades em que se passa a história – a quem o autor – a maneira de Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis – atribui nomes que muito falam por si (Pracabá, Promessa e Medida do Bonfim).

Com o passar das páginas, o leitor vai sentindo introjetar a alma dessas cidades.

Outra inquietação é a entrada na história de personagens reais. Mais uma sutileza tênue que o romance traz com fina execução, que levará aos leitores, boa parte dos quais reconhecerão estas biografias, certamente, profunda emoção.

Neste sentido, personagens realistas encontram personagens reais e o romance se avizinha de uma inquietante realidade aumentada. Os leitores são levados a percorrer pontes e escadas sem corrimão entre a realidade e a ficção, com grande liberdade.

Com o amadurecimento dos personagens e dos acontecimentos, o que é uma história sobre amor e amores, reinvenção, destino e estrada, uma geração e suas influências, encontros, sobretudo encontros, amálgama, amplia-se. O livro, que vinha num mérito de emprestar uma profundidade filosófica a temas leves, cotidianos, quase banais, confronta os personagens narradores com realidades mais profundas e flerta com o existencialismo (à propósito, A Náusea, de Sartre, também é permeada por uma história bem comum de amor) e quando o faz, faz talvez no sentido contrário, o de emprestar leveza ao que é profundo.

Como gota de óleo na superfície da água é um título super feliz não só pela beleza da metáfora que encontrou o Léo. Mas talvez fale da forma também de como o romance conseguiu juntar uma pletora de sentimentos, de vozes, de rastros de histórias, de pistas sobre uma geração, num todo rico e harmônico, costurado com naturalidade.

A angústia de todo leitor é ser confrontado com grande oferta de livros e o sempre exíguo tempo que exige eleger prioridades. Pois Como Gota de Óleo na Superfície de Água entrega, em troca de cada minuto de leitura – e, em seu ritmo voraz– um grande prazer literário.

 Fonte: Jornal Correio da Semana 737,pag 4. Sobral(CE),24 de junho de c2017

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