Estudante cearense recebe livros após escrever para físico

 Emanoel vem de uma família de 10 irmãos e sempre estudou em escola pública.Foto-Arquivo pessoal

O estudante cearense de licenciatura em Física, Emanoel Lima, de 21 anos, mal podia acreditar no pacote volumoso que recebeu em Sobral, na última quinta-feira (15). Eram os quatro volumes da coleção de Física Básica do professor Moysés Nussenzveig, paulista autor de livros didáticos adotados no Brasil e ídolo pessoal do estudante. A “encomenda” chegou após trocas de mensagens em uma rede social, desde o dia 3 de janeiro, procurando apoio para os estudos na área.

Nussenzveig tem 87 anos e é professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “Para Emanoel, com um grande abraço”, autografou o estudioso na folha de rosto dos livros.

Depois de ter o pedido de conexão aceito, Emanoel conta que “criou coragem” e escreveu para o filho de Moysés, o também físico Paulo Nussenzveig, professor titular no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), pedindo livros para estudar. Podiam ser até mesmo “muito usados”, lembra o estudante. Ele se aproximou da matéria no fim do Ensino Médio, após aulas de termodinâmica. “Me sinto muito mais à vontade com os números. Fico maravilhado com aquelas expressões, com o que elas representam no nosso mundo real”, afirma.

As surpresas não pararam quando Paulo garantiu que enviaria o material – mesmo sem Emanoel saber quais livros receberia. No meio do caminho, teve uma encomenda devolvida por erro no endereço – “na pressa, mandei o número da casa ao lado”, lembra o estudante – e a pandemia da Covid-19. 

A solução foi o intermédio do professor Antonio Gomes de Souza Filho, do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele recebeu o pacote em Fortaleza e o encaminhou para um escritório de contabilidade em Sobral, onde o estudante foi buscar.

“Achei muito simbólico ter chegado no Dia do Professor”, afirma Emanoel, que é natural de Ubajara, a 120 km de Sobral, e vem de uma família de 10 irmãos. Estudante de escola pública, ele foi o primeiro deles a adentrar numa universidade. Antes de ingressar numa república com outros cinco estudantes, em Sobral, ele fazia viagens de duas horas de ônibus entre as duas cidades – por vezes, saindo na madrugada e chegando no fim da noite. 

As restrições na renda, mesmo com apoio de familiares, o levaram a uma escolha: ou comprava os livros ou pagava o aluguel e demais contas. Por isso, ele vê a doação como grande incentivo. Hoje na metade do curso, no qual está “muito feliz”, Emanoel sonha em seguir carreira acadêmica e ser cientista.“Para agradecer, faça bom proveito e ajude aos outros como te ajudaram. Compartilhe seus conhecimentos”, recomendou o professor Paulo após a chegada da coleção.

Emanoel tem isso em mente. “Eu não sou um caso específico. Sou simplesmente mais um ‘José’ com um sonho. Tem outros amigos meus que são da mesma forma, eles batalham bastante com as dificuldades. Tem pessoas que viajam mais de 100 km para Sobral todos os dias e voltam, e continuam sendo bons alunos”, observa.

Diário do Nordeste/Escrito por Nícolas Paulino, 11:35 / 17 de Outubro de 2020

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