5 anos sem Belchior: o retrato do Brasil na obra do artista

Belchior em reprodução de frame do documentário "Apenas um Coração Selvagem"(foto: Mario Luiz Thompson/ Divulgação)
Belchior em reprodução de frame do documentário “Apenas um Coração Selvagem”(foto: Mario Luiz Thompson/ Divulgação)

“As velas do Mucuripe/ Vão sair para pescar/ Vou mandar as minhas mágoas/ Pras águas fundas do mar”. Quem conhece a paisagem detalhada na canção “Mucuripe” sabe que a descrição remete a uma das principais áreas litorâneas de Fortaleza. Próximo ao cais do porto, é possível vislumbrar várias jangadas de pescadores, meio de transporte de mercadorias e mensagens. Os versos, que viriam a ser gravados também por Elis Regina e Roberto Carlos, começaram a ser escritos por Antônio Carlos Belchior num guardanapo em uma das mesas do Anísio, bar das redondezas que se tornou local de encontro entre músicos e boêmios cearenses por volta dos anos 1970.

A letra retrata o movimento contínuo e usual da praia entre as primeiras horas da manhã e do fim da tarde, sendo finalizada em uma parceria com Raimundo Fagner e se tornando uma das principais faixas do repertório vasto de Belchior. Assim como em demais canções, o artista cearense narra os pormenores da vida e traça uma ligação entre a arte e as paisagens. “O contato com todos esses ambientes do Ceará formaram a identidade do sujeito Belchior e muitos deles aparecem mencionados em sua obra cancional”, destaca a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Josy Teixeira, com doutorado sobre Belchior e pós-doutorado em Análise do Discurso e Música. 

Ela menciona “Bela“, do disco “Paraíso” (1982), que fala: “Ela/ Sensibilidade de Fortaleza à luz do dia” e “Pequeno Mapa do Tempo” (1980), com o trecho: “Eu tenho medo/ (Estrela do Norte, paixão! Morte é certeza!)/ Medo-Fortaleza, Medo-Ceará”. As palavras remetem a uma vivência de Nordeste que começa ainda no município de Sobral, no Ceará, onde o cantor explorou a infância com banhos no rio Acaraú e nas saídas para as feiras de música. Logo depois, veio o encontro com Fortaleza para os estudos no tradicional colégio Liceu do Ceará, no Centro, para desembocar em uma desistência acadêmica para ir ao mosteiro de Guaramiranga, onde ficaria conhecido como frei Francisco Antônio de Sobral.

Na reclusão da serra, era considerado disciplinado e cortês, com facilidade para escrita e notável senso de humor. Demorou três anos para concluir que não tinha vocação para a vida religiosa e decidiu retornar para a rotina fortalezense, na qual se dedicou por quatro anos ao curso de Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi neste período em que se aproximou da música local, por meio da áurea boêmia universitária, ao lado de Fausto Nilo e Jorge Mello. Foi o momento de ter certeza que, como entoa em “Como Nossos Pais”, não iria voltar para o sertão.

“Na maioria das vezes, o Ceará não é citado nominalmente nas letras de Belchior, sendo inferido pelo ouvinte dentro de uma classificação mais genérica, ligadas aos termos ‘interior’, ‘norte’ e ‘sertão’. Seja de forma explícita ou implícita, a relação com o espaço geográfico do Estado é essencial no cancioneiro de Belchior”, acrescenta Josy. Desta forma, o compositor fincou a identidade de “rapaz latino-americano”, esse “nordestino que migra para a cidade grande”. Esta relação, pontua a pesquisadora, é vista em versos como o da canção “Baihuno” (1993): “Diz àqueles da província que já me viste a perigo, na cidade grande enfim/ Conta aos amigos doutores que abandonei a escola para cantar em cabaré/ Baiões, bárbaros, baihunos, com a mesma dura ternura que aprendi na estrada e em Che”.

Sucesso nacional 

A transição até a vida artística se deu, em grande parte, pela companhia próxima de personalidades como Amelinha, Rodger Rogério e Ednardo, integrantes do movimento conhecido como Pessoal do Ceará. “Esse foi o primeiro cenário de desenvolvimento dele”, explica o jornalista Jotabê Medeiros, autor do livro “Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano“, publicado em 2017. “Tinha muita gente do interior, de Quixeramobim, Orós, Piripiri. Você tinha ali uma amostragem do sertão, ao mesmo tempo muito focado nas referências literárias mais sofisticadas. Eles tinham uma visão muito ampla. Porque, na verdade, naquela época as cidades eram províncias. Eles fizeram da província um lugar universal”.

Medeiros explica que a poética de Belchior nunca se distanciou das vivências que começaram ainda na faculdade de Medicina e atravessaram pelas temporadas na Capital, sendo base para sucessos como “Na Hora do Almoço” e “Galos, Noites e Quintais”. A expansão deste panorama aconteceu a partir da ida do artista para o Rio de Janeiro, em 1971, e consequentemente para São Paulo, onde gravou discos. “Ele aprofundou outros tipos de linguagens, com as vanguardas concretistas visuais, de artes plásticas”, exemplifica.

O jornalista aponta que o trabalho do cearense tem uma grande ligação com os cenários e reforça a letra de “Passeio” (1974) como uma das principais composições sobre a metrópole paulista: “Por entre os carros de São Paulo/ Meu amor, vamos andar e passear/ Vamos sair pela rua da Consolação”. O motivo é claro: “Parece que está tudo lá, os lugares, as pessoas, e principalmente as influências”, assimila Jotabê. Para ele, o cantor tirava muita força poética de cenários, aparentemente, não tão marcantes. “A música de Belchior é muito cronista, um relato do cotidiano. São canções com apego universal, que falam da condição humana. Todo mundo sabe que ele é um poeta extraordinário que produziu uma das obras mais singulares da musica brasileira”.

Exílio 

O estrelato nacional chegou com o álbum “Alucinação” (1976) e permaneceu durante a trajetória que rendeu mais de 18 títulos, sendo 12 LP’s e seis CDs. Entretanto, em 2008, o artista saiu de cena para viver em auto-exílio. O destino foi incerto. Meses depois, turistas o viram no Uruguai, onde concedeu entrevista para a TV Globo: “Vou lançar um disco com canções novas e tenho certeza que vai ser a continuidade do amor que o povo do Brasil sabe que eu tenho por ele”, disse na reportagem de 2009. O desejo, todavia, nunca aconteceu. O compositor faleceu no anonimato em 2017, na cidade de Santa Cruz do Sul, em decorrência de infarto.

Esses dez anos de afastamento motivaram os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti a produzirem o livro “Viver É Melhor Que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior” (2021), um “road book” construído na revisitação dos passos do artista, entre Nordeste, Sudeste e Sul. “O livro resgata a história desde que ele nasceu, mas com esse foco que todo mundo tem: por que ele fez isso?”, explica Chris. Entre as entrevistas, os escritores descobriram de tudo um pouco. “A gente ouviu de tudo. Era unânime que Belchior era um cara muito gentil, interessante, engraçado, mas a gente também ouviu que ele tinha mágoas, porque as pessoas tinham expectativas diferentes”.

Esse movimento transitório, de reclusão, sempre foi algo presente na vida do cearense. Desde a infância, cercada pelo mundo dos livros, até as partidas inesperadas da adolescência e as renúncias da vida adulta, que culminaram em distanciamento dos filhos, acúmulo de dívidas e polêmica com a imprensa. “O que me deixou mais feliz foi perceber que ele não estava sofrendo, ele estava se divertindo. Ele já tinha feito isso antes, o irmão dele falou que talvez ele aparecesse. A parte triste foi perceber os tempos difíceis, como nos dias que ele dormiu na rua porque as pessoas não estenderam a mão para ele. A maioria das pessoas não estava disposta a ajudar um ser humano normal, estava disposta a ter um artista em casa”.

Após tanta peregrinação ele conseguiu, finalmente, uma rotina tranquila nos últimos anos de vida. As poucas pessoas que sabiam de seu paradeiro cumpriam um acordo velado de silêncio e permitiam que ele vivesse tranquilamente. “Muita gente simplifica esse sumiço dele. O que a gente queria, com o livro, era complexificar para que as pessoas pudessem entender. Nós temos um turbilhão de emoções. Ele canta: ‘Eu sou como você’. Ele não é diferente de tanta gente, ele só teve a oportunidade e a coragem”, diz Chris. A jornalista considera a obra de Belchior um “divisor de águas” e afirma: “Eu sei que ele se via também, por isso ele tinha tanta mágoa com o mercado. A mensagem dele era muito direta”.

Anos depois, a música de Belchior ganha um destaque, até então, inédito. Àqueles que só conseguiam apreciar as discografias internacionais de repente revisitam as letras e melodias do cearense, que ganham destaque em novelas nacionais e novos trabalhos de releituras, a exemplo do que fizeram as cantoras Ana Cañas, Daíra e Amelinha. “Acho importante, saudável, necessário. Mas se a gente tivesse isso em 2016, a gente poderia ainda ter visto ele vivo em palco. Porque era isso que ele queria. Como diria algumas fontes do meu livro, ele também queria virar ‘santo’. E falava sobre esse reconhecimento, não à toa, durante o exílio, ele falava que estava preparando um disco melhor que ‘Alucinação’”, frisa a escritora.

O POVO online – Vida&Arte – 10:00 | Abr. 30, 2022 Autor Lara Montezuma

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