Os impactos da Ditadura Militar na música nordestina

As gravações com Capinan para o documentário 'O Silêncio que Canta por Liberdade' aconteceram no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador (Foto: Victor Carvalho)
As gravações com Capinan para o documentário ‘O Silêncio que Canta por Liberdade’ aconteceram no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador (Foto: Victor Carvalho)

“Há soldados armados, amados ou não/ Quase todos perdidos de armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/ De morrer pela pátria e viver sem razão”. A canção de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, foi tocada no III Festival Internacional da Canção da TV Globo, em 1968, e se tornou um símbolo da resistência contra a Ditadura Militar (1964 -1985). Outros artistas, como Chico Buarque (“Apesar de Você” e “Cálice”), Elis Regina (“O Bêbado e o Equilibrista”) e Gilberto Gil (“Domingo no Parque”) também consagraram obras no período e viraram representações de uma juventude inconformada com a repressão. Alguns desses cantores são do Nordeste, mas eles atuaram principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Quatro décadas após o fim do regime, várias questões ainda permanecem imprecisas e pouco conhecidas. Uma delas é o que aconteceu com a música nordestina naqueles vinte anos sem liberdade de expressão. Essa indagação resultou no documentário “O Silêncio que Canta Por Liberdade”, dirigido por Úrsula Corona e idealizado por Omar Marzagão. Dividida em oito episódios, a produção audiovisual resgata como o sistema autoritário atuou contra os cantores e compositores nordestinos.

“Sabíamos muito da história dos artistas que estavam no Sudeste, mas não conhecíamos o que ocorreu no Nordeste. Fomos pesquisar e encontramos histórias fragmentadas. Então, decidimos fazer uma série investigativa, em que pudéssemos montar esse quebra-cabeça”, explica Úrsula Corona. Com mais de três anos no processo de investigação, as filmagens só começaram em 2019.

Documentos originais e imagens de arquivo foram algumas das fontes de pesquisa. Além disso, colheram diversos depoimentos que constarão na obra, como os de Gilberto Gil e Gal Costa. Capinan, que completa 80 anos nesta sexta-feira, 19, também participa ao explicar sobre o surgimento do samba nos navios negreiros. De cearenses, estarão Fausto Nilo, Ednardo e outros que serão revelados posteriormente.

A narrativa mostrará muitas pessoas que foram impactadas pela Ditadura Militar. Não só: ela revelará os reflexos da repressão nas gerações seguintes, a partir das perspectivas dos filhos de quem sofreu durante o período. Para Úrsula, a cultura amedronta por causa de sua força. “A cultura fala no coração do povo. Isso pode ser uma ameaça. E naquela época, ela foi ameaçadora”, indica.

“O resgate da memória cultural do Brasil não tem tempo certo. É algo que tem que ser registrado e que pode servir para o momento político que vivemos agora. Quando começamos esse projeto, era outro governo. Preservar a história cultural do Brasil e do Nordeste é importantíssimo”, ressalta Omar Marzagão. O documentário será exibido pela primeira vez no canal Music Box Brasil e está previsto para lançamento durante o segundo semestre de 2021. “O Silêncio que Canta por Liberdade” é uma obra original da Sete Artes Produções, coproduzida com Luni Produções, SUPER 8 e Círculo Filmes.

O POVO online – Por CLARA MENEZES 19:37 | 19/02/2021 0FacebookTwitter

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