Marisa Monte faz show em Fortaleza e se posiciona: ‘Seguirei fazendo resistência poética’

O show terá canções de todas as fases da carreira de Marisa – desde músicas antigas do primeiro disco até as novas faixas do álbum “Portas”Foto: Léo Aversa

Primeiro trabalho solo e inédito de Marisa Monte desde 2011, “Portas” desembarca em Fortaleza neste sábado (23) por meio de turnê homônima. Lançado no ano passado, o disco é um genuíno fruto marisiense. Carrega a indisfarçável leveza da artista, mas sobretudo o ímpeto de singrar mudanças. Acordes em pé de guerra mansa.

“Portas são elementos muito simbólicos que trazem vários significados. Passagem, transformação, escolha, opções, aberturas, fechamentos, mudanças. E essas aberturas podem ser externas ou internas”, divide a cantora e compositora em entrevista ao Verso por e-mail. 

Ela diz compartilhar todos os sentimentos de incerteza, angústias e medos do trágico momento atual. Contudo, por meio da arte, quer oferecer resistência poética, criativa e amorosa. “Isso é política civil, campo onde percebo os movimentos mais inspiradores”. 

No palco do Centro de Eventos do Ceará, a jornada lírica será bandeira. O show terá canções de todas as fases da carreira de Marisa – desde músicas antigas do primeiro disco até as novas faixas do “Portas”. Fortaleza, segundo ela, nunca ficaria de fora desse trânsito afetivo. Vários amigos da cantora e as raízes familiares pelo lado paterno estão em território cearense.

“Me sinto em casa e adoro me apresentar e estar no Ceará sempre. Me sinto forte em Fortaleza”. Bravura acumulada até chegar ao agora. Durante o período sem lançar trabalhos solos e inéditos, Monte trabalhou bastante em projetos colaborativos. Manteve e renovou parcerias. Aprendeu convivendo com Paulinho da Viola, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Arto Lindsay, Seu Jorge, Chico Brown, Silva, Marcelo Camelo, entre outros nomes.

A pandemia de Covid-19, por sua vez, deixou a carioca com desejo intenso de reencontrar o público, embora não apenas. Celebrar a vida, semear a arte e a poesia e alimentar a imaginação e a criatividade em si e nos outros tornaram-se farol. “Tem sido emocionante estar de volta aos palcos, pé na estrada, cantando junto, acessando as memórias afetivas e potencializando as sensações coletivamente”, festeja.

TRANSPORTE AO SUBLIME

Com cancioneiro inteiramente dedicado ao sublime, Marisa entrega mais uma generosa parcela de ternura no mais recente disco. “Portas” segue a trajetória de transporte ao belo, beneficiado por versos como “Lá vem o sol/ Para derreter as nuvens negras/ Para iluminar o fim do túnel/ E a luz do céu/ Para inspirar os seus desejos/ Pra fazer você encher o peito e cantar”. Nada mais alentador.

Para Monte, apesar de todas as dificuldades e da retração democrática, estamos no processo evolutivo civilizatório, algo que o disco busca captar e traduzir. “Se avaliarmos uma curva de tempo mais larga, de 50 ou 100 anos, certamente perceberemos os avanços no campo da ciência, do comportamento, dos direitos civis e das liberdades individuais, e das questões de gênero e raciais”, analisa.

Ao mesmo tempo, ela compreende que todos os passos são construção coletiva social – infelizmente não tão rápida quanto gostaríamos, mas que segue sempre no fluxo constante em direção ao progresso. “Gostaria de conectar as pessoas com esse senso de esperança e com a certeza histórica do progresso e da evolução civilizatória”.

Diário do Nordeste – Escrito por Diego Barbosadiego.barbosa@svm.com.br 10:50 / 22 de Abril de 2022.


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